domingo, 31 de agosto de 2014

Carta de Helena

 

Como seria bom acordar todos os dias sem esse medo e sem lembranças de todos os pesadelos que eu já tive e do qeu eu vivi. Não aguento mais sentir esse medo. Não qualquer medo, mas esse medo desesperador. Um medo inquietante que faz sentir alguém me levando pelo braço, me puxando contra a vontade pra me maltratar. É um medo que faz gelar a boca do estômago só de pensar.

“Mas não se preocupe querida, já passou. Você está bem agora.” Por que dizem isso? Não estou bem, nunca mais ficarei bem! Não entendem? Por acaso você se sentiria bem se não conseguisse mais confiar em ninguém, se o mínimo gesto te assustasse e nada na sua vida desse certo por causa desse medo? Por que ninguém me entende? É como se eu gritasse de dentro do meu próprio túmulo. Eu só queria poder sair de dentro da minha casa sem ficar apavorada. Mas não consigo, mesmo que alguém da minha confiança me acompanhe. Não aguento mais isso.

Eu queria poder me livrar desse tremor nas mãos e poder achar que amanhã tudo ficará bem. Não quero mais essas crises de choro, essa ânsia. Quero me livrar desses sentimentos e sensações que parecem galhos cheios de espinhos que me abraçam. Como aqueles espinhos que me deixaram essas cicatrizes.

Ontem consegui subir no terraço sozinha. Até conheci alguém. Ele é um cara bem legal, eu acho. Mas meio maluco também. Encontrei ele lá em cima dizendo que ia pular. Eu duvidei. Mas confesso que fiquei com inveja da ideia. Nós até almoçamos juntos. Ele não percebeu o tremor das minhas mãos. Ele também não entendeu quando eu olhei pro rosto dele e derrubei o prato, que cortou meu pé. Mas se ele soubesse, teria corrido pra casa pra ficar longe. Por que eu vi nele aqueles olhos azuis, aqueles malditos olhos azuis que me perseguem e que toda noite me vigiam, me amedrontam e fazem com que eu perca o sono e viva como um zumbi o resto do dia. Tenho certeza que se ele soubesse desse pânico nunca se aproximaria.

Não quero mais, não aguento. Eu não vou voltar ao normal. Já tentei de tudo e mesmo assim ainda me sinto como um carro desgovernado caindo em um precipício. Não vejo como parar. Talvez fosse melhor ... cair.

Nem sei quantas vezes já escrevi cartas como estas. Joguei todas fora depois. Por que mostraria a alguém? Por que contaria a alguém o que sinto. Me chamariam de louca, insensata. Me desprezariam. Eu me desprezo. Eu me odeio por ter ficado até tão tarde naquele dia. Foi tudo culpa minha. Mas agora não adianta mais. E esse cheiro que não sai das minhas narinas, está impregnado no meu corpo, eu sinto. Ninguém sente, mas eu sinto, continua aqui. Por mais que eu tome três banhos por dia, continua esse cheiro de sangue na minha pele, nos meus cabelos. Ainda sinto também as mãos daquelas mulheres nojentas me despindo, me tocando, rindo. Estou suja, violada. Tenho nojo. Nojo. Não suporto. Chega.

Não vou rasgar essa carta. Vou deixar ela bem aqui, em cima do sofá.

Adeus.


Helena


Um comentário:

  1. Sem palavras pra descrever o é bom este conto...Ele em si cm a carta de Helena faz refletimos um pouco sobre nossas vidas,sem palavras pra descrever tanto qualidade parabéns meu Tio Mauro Ávila

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